A conversa era séria e o ar estava pesado, a contrastar com o dia soberbo. “Gosto muito de ti, mas não quero fazer o que os namorados fazem”, disse ela.

A frase foi como um murro no estômago e a cena, que já soava incrivelmente familiar, tornou-se agora óbvia. Uma vez mais, uma relação tinha-me trazido a este sítio tão desconfortável. A esta realidade de mensagens contraditórias e onde aquilo que parece lógico, afinal não é, porque as pessoas simplesmente não são lógicas e o amor não se resolve de calculadora na mão.

Gostava de não me esquecer tantas vezes do raciocínio anterior. De todas as formas possíveis das relações acabarem ou até deixarem de acontecer, esta é a que mais me entristece. Aceito e compreendo que alguém deixe de amar outra pessoa. Mas uma parte de mim fica frustrada quando atinjo este estado platónico porque sente que ou não se qualifica para as Olimpíadas Amorosas ou então passa pelo amor a correr, chegando logo a um nível seguinte onde a ligação emocional existe, é forte e sente-se quando falta, mas que também não é amor, naquela vertente arrebatadora dos sentidos, que invade o pensamento e nos conduz inevitavelmente aos braços da pessoa amada.

Estranhamente, tenho um jeito enorme para me colocar nesta posição e aquilo que sinto vai piorando de cada vez que isto acontece. Ao princípio achava que até era algum tipo de aspecto positivo da minha personalidade, conseguir que as pessoas se mantivessem ligadas a mim, mesmo sem um interesse amoroso. Agora, aquilo que me parecia elogioso ou positivo, soa-me cada vez mais oco, falso ou insultuoso. Na verdade, odeio que me digam isto, que me dêem esta desculpa. Porque isto não é mais do que uma desculpa, do que um atentado à minha inteligência e uma total falta de respeito por aquilo que sinto. É como se as pessoas não conseguissem ser claras comigo. Dizerem o que sentem ou não sentem e dizerem-me que simplesmente não me querem ver mais, porque a minha presença as aborrece ou as irrita ou as entristece.

Acho que passei tanto tempo a ler nas entrelinhas de tantas pessoas que, às vezes, sinto que não consigo comunicar claramente com ninguém. O problema destas pessoas é que nunca sabemos o que querem dizer. Será que a mensagem é aquela ou tem um segundo sentido? Em que é que ela estará a pensar? Será que está a dizer isto para se proteger de alguma coisa? Ora, não saber o que a outra pessoa está a pensar ou a sentir mas mesmo assim importarmo-nos dá-lhes um poder bastante grande que, mais cedo ou mais tarde, elas vão perceber que têm.

Não quero desistir, mas estou cansado de pessoas que não são genuínas. E estou muito cansado de ser tudo aquilo que esperam de mim sem que sejam o mesmo para mim.  Estou cansado de puxar sempre pelas minhas relações, porque no meio de tanto esforço, esqueço-me sempre do essencial e esqueço-me que o amor tem tanto de dar como receber, para ser vivido na sua plenitude.

2 Comments

  1. Clap Clap Clap…

    Plenamente partilhado, no sexo oposto…

  2. E quando é preciso ler nas entre-linhas? As pessoas deviam directas e sinceras. Ao menos não criavam expectativas nos outros…


Post a Comment

*
*